o que vejo e sinto

maio 04, 2009

Sombras raptadas

Adriana Donato , em exposição de 17 de abril, até o dia 30 de maio de 2009, La Photo,Porto Alegre-RS.


Adriana Donato , em exposição de 17 de abril, até o dia 30 de maio de 2009, La Photo,Porto Alegre-RS.


Adriana Donato , em exposição de 17 de abril, até o dia 30 de maio de 2009, La Photo,Porto Alegre-RS.

Formas sombriáticas ( não sei existe este termo ); Mas este é termo que elejo para descrever as fotos de Adriana Donato , em exposição de 17 de abril, de segunda a sexta das 11h às 19h e aos sábados das 11h às 15h, até o dia 30 de maio. La Photo (Travessa da Paz, 44 – Fone (51) 3221-6730), Porto Alegre-RS, com a Curadoria de Dione Vieira Veiga. De acordo com com própria artista este trabalho “é conseqüência de um estudo de dois anos sobre a influência das sombras na arte. Após um primeiro ensaio, que resultou na exposição Sombras sobre o corpo, surgiu a idéia de estender esta pesquisa ao meio urbano, partindo do Mito da Caverna, de Platão, passando pelo mito do Desenho de Sombra, até os estudos de Leonardo Da Vinci e o inicio da fotografia. O Mito da Caverna, narrado por Platão no livro VII de A Republica...” http://revisadoseoutros.blogspot.com/2009/04/as-sombras-do-mundo.html;
Como toda a sombra, o quase todas, são efêmeras, as sombras de Adriana se impõem de maneira quase que eterna. Na verdade a Adriana eterniza o efêmero com suas fotos; Ao olhar e sentir suas imagens se percebe uma convivência natural entre o que existe e o que passa existir com olhar. A imagem é a sombra em si. Um belo exercício para ver o que não vemos no cotidiano. Para olhares apressados, podem parecer apenas sombras intrometidas que surgiram em momentos inoportunos.
Mas as sombras, que existem em todos os recantos, que haja luz, também falam, expressam , denunciam e instigam o olhar para o claro e escuro, o que na verdade é feito o nosso imaginário. Somos também sombras de vivências e expectativas; Penso que nossas dores, e confortos , a beleza e feiúra da cidade e do existir é quando se alteram as sombras. Depende como estamos, de nosso ponto de vista , de nosso momento emocional ; as sombras também são belas, e belas parceiras para se estar junto. As sombras também são poesias visuais, basta que se traduza; O que Adriana fez com sensibilidade impar.
Penso, até em uma mitologia possível de devaneios e associação livre que a sombra poderia ser uma deusa antagônica a deusa Luz. A deusa Sombra esta sempre onde a Luz esta, ( vice e versa) se amam e se odeiam. Elas não sabem, mas na verdade são Deusas Siamesas, que não vivem independentes. Onde estiver à sombra deve haver luz, assim sendo, elas habitam todos os recantos do universo, mas apenas juntas.
Adriana raptou as sombras da cidade; a cidade sempre terá sombras; Mas depois de vê-las e admira-las não tem como não sentir-se um pouco cúmplice deste rapto.

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janeiro 16, 2008

Verás ainda, o cinema de Vera

Com a bendita retomada, já alguns anos, de produções nacionais e regionais, temos o privilégio de apreciar belíssimas obras com conteúdos profundos e primor técnico invejável.
Há cineastas desconhecidos que produzem suas obras e são vistas por uma minoria. Sabe-se aí, que muitos interesses e outras condições são variáveis que sempre vão estar presentes e impedindo que muitas produções ingressem no circuito comercial ou em outros circuitos culturais de abrangência maior. São os fenômenos incompreendidos de mercado comercial e cultural. Isto acontece com outras manifestações artísticas, e não é diferente com o áudio visual (cinema película/digital). Verbas e verbas astronômicas para produções puramente facilitadas - no sentido de beneficiar alguns poucos, e sem a perceptiva de retorno de investimento considerando como um produto. Mas este é outro tema....
Sempre vamos ter talentos escondidos que poderão ou não serem descobertos. Lastima, quando suas obras não chegam a nós. Perdemos todos. Mas penso que a empreitada é assim mesmo, e como desafio, resta a produzir e mostrar mesmo que estas amostragem sejam restritas. Menos mal que hoje temos a internet com alguns sites que possibilitam a divulgação, amostragem e até exibição de algumas obras.
Eu me deparei com um talento já alguns anos, para mim um grande achado. E gostaria imensamente que todos pudessem ter acesso, a obra desta artista. Falo da diretora e talentosa Vera da Luz, de Porto Alegre, que vem do teatro , lá dos anos 80 (como atriz, diretora e produtora) , desembocando no Vídeo/Cinema -Digital e Diretora de Televisão ( programa Saber Mais, canal 06 da net Porto Alegre, (http://www.poatv.org.br/) e também cantora. É um talento, raro que pouco sabemos.
A obra de Vera da Luz, tem algo orgânico e intuitivo. Ela roteiriza, capta as imagens de maneira pura, como são concebida em sua criação, isto dá uma individualidade, uma tonalidade e dramaticidade incomum. Às vezes penso; se A Vera tivesse todas as condições técnicas e orçamentos , o que ela faria ? Também tenho dúvidas, acho que a pureza dos conteúdos e da carência de produção é que dão o diferencial de sua obra. Não sei se grandes orçamentos poderiam manter a fidelidade de suas criações. Os apoios e orçamentos maiores, poderiam sim, ajudar a divulgar e colocar suas obras para o acesso a todas as pessoas. Por que sua obra fala de gente, fala de sentimentos de realidades, sonhos e da existência humana como ela é; Pura, simples, delicada e extremamente envolvente.
Encanta-me muito um dos seus filme que se chama A Espera ( 2002), dirigido, produzido e com atuação dela própria. Este filme , foi todo rodado na serra Gaúcha, e com a trilha sonora de uma Compositora e Interprete do Nordeste do Brasil ( Paraíba) que se chama Socorro Lyra, um mix raro que deu muito certo. Teve, naturalmente, a sensibilidade de Vera para fazer esta junção em tempo e espaço adequado. Como o filme fala de gente que espera algo, isto se torna atemporal e sem localização geográfica. Pois a espera esta no coração. Basta estar vivo em qualquer lugar do planeta para entender e sentir o filme. A serra gaúcha embalada por um tom e melodia do sertão. Um primor, que quando termina, ficamos na espera de mais. Há cenas que marcam pela sensibilidade e da dureza das personagens por longos anos de espera. Esta espera foi incorporada no cotidiano, na vida esquecida e em um lugar bucólico, que por vezes aperta o coração e denuncia nossas saudades e desejo de rever alguém. Seus rostos e gestos, são quase automatizados, embrutecidos pelo escárnio do tempo. Seguem um ritual repetitivo, de acordar, tomar chimarrão, ir a roça, que por vezes sofrem a intervenção de resquícios de sonhos e desejos, que invadem as cenas tingindo de uma cor improvável o verde da serra. As personagens, há muito não choram mais. As lágrimas secaram. Mas Vera, traz o choro e as lágrimas através de um chuva torrencial que escorre pelas velhas telhas da casa; Como as velhas faces surradas, duras e quase fria das personagens. É água que escorre, que lava , inunda , que leva e traz inúmeros conteúdos que são captados de relance pela lente sensível e sabia da diretora. No fundo o fogo de chão que continua alimentar a espera enquanto o coração das duas irmãs continuam em um lamento silencioso e cronificado, esperando por alguém que deve chegar. Cenas como esta e outras tornam o filme uma poesia intimista com ícones reconhecidos por todos. Em sua lente, vê-se citações propositadas ou não de Buñel, Feline e Bergman com delicadeza e sutileza de quem tem talento para tal.
Vera da Luz, dirigiu , atuou, roteirizou inúmeros trabalhos e já foi premiada em amostras de vídeo em Porto Alegre, alguns trabalhos já rodam o mundo, suas interpretações na musica já fazem escala no Japão, mas aqui pouco sabemos de sua obra. Eu tenho o privilegio de ter acesso a obra de Vera, e gostaria muito que maior numero de pessoas pudessem ter acesso .Espero e aposto que logo veremos o cinema de Vera . E que a Vera não perca jamais esta paixão que é o cinema. E quem conhece a Vera, sabe que isto esta em todos seus poros. Vera sou teu fã. Espero ainda ver muitas de seus filmes, e que sei são inúmeros projetos esperando apoio e investidores.

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